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VOCÊ SÓ FALA INGLÊS COM ELE?

Eu já falei algumas vezes sobre a importância de ter uma relação forte de mãe-filho (pai-filho) antes de se preocupar com o bilinguismo. Por que eu digo isso? Porque nenhum pai ou mãe deveria de se preocupar com bilinguismo para se exibir pro mundo. E porque o aprendizado da língua pode acontecer em qualquer idade, mas o vínculo afetivo precisa ser construído desde o nascimento.





A pergunta que eu mais escuto é: tu só fala inglês com o Lucas? E a resposta não é tão simples assim.


Eu sempre digo que eu praticamente só falo em inglês com ele, mas que existem algumas situações que eu uso português. Não sou radical como professora e nem como mãe. Tem algumas palavras que eu preferi manter em português porque faziam muito mais sentido (para mim, para ele, para família).


O Lucas chama os meus pais e meus sogros de vovô e vovó. Ele sabe grandpa e grandma, mas sei que para meus pais e meus sogros, ouvir vovô e vovó é muito mais significativo. O mesmo vale para os dindos e as dindas. Outras palavras que ficaram em português na nossa casa são: bibi (bico), mamadeira, papai do céu, titio e titia.


Além disso, quando ele era pequeno eu tinha um CD da Palavra Cantada com várias cantigas infantis, trava-línguas e poemas que eu amava e me remetiam à minha infância. Eu obviamente ouvia e cantava para ele e nunca me importei.





Eu li e continuo lendo livros em português. Sobrevivi o vício da Galinha Pintadinha e também assisti Luna.


Mas, Aline, isso não é ruim, não confunde, não abre brechas para ele falar em português contigo?


Não é ruim, não confunde, não faz mal, mas sim, deixa bem claro para ele que eu também aceito o português nas nossas interações.


Eu não me arrependo nem um pouco. Todas essas palavras, músicas, histórias e brincadeiras são carregadas de afeto, lembranças da minha infância, de brincadeiras com a minha avó; um pouco do meu passado que agora é parte do meu presente com o Lucas.


Minha avó brincava comigo aquela brincadeira com os dedos (seu minguinho, seu vizinho, pai de todos, fura bolo e mata piolhos). Existe a versão em inglês? Sim, existe e eu podia aprender, mas não é a mesma coisa. Podia colocar a Galinha Pintadinha em inglês? Poderia, mas tem tanto da nossa cultura que não fazia sentido mudar a língua. Afinal de contas, existem tantos outros desenhos para assistir em inglês, não é mesmo? Eu podia rezar em inglês? Claro, podia, mas para mim, chamar de Papai do Céu é tão mais amoroso do que dizer, God, Lord, Father ou qualquer outra palavra.





Lucas sempre me ouviu falar português. As interações que eu tenho com o Gustavo e com as nossas famílias são praticamente só em português. Com o Lucas eu continuo falando quase que só em inglês e ele me reponde tanto em inglês quanto em português.


Se a nossa metodologia aqui em casa fosse, OPOL (one parent, one language – cada um de nós usando apenas uma língua), talvez o Lucas falaria mais em inglês comigo, ou talvez não. O fato do Gustavo falar quase que só em inglês ajuda muito. Não temos como saber como seria o bilinguismo dele se tivéssemos feito diferente. Não tem como saber como ele reagiria se eu nunca aceitasse o português como língua das nossas interações.


Uma coisa eu tenho certeza, não me arrependo de nenhuma interação, música, história ou brincadeira em português. Eu uso algumas estratégias para ver se ele consegue trocar e falar em inglês, eu faço que não entendi a palavra, eu repito na língua alvo e vejo se funciona. Mas, eu nunca, mas nunca, quero silenciar o meu filho.


Mais importante do que a língua que ele está usando para me contar algo, é exatamente o que ele quer me contar. Se ele falar em inglês, melhor ainda. Porém, aqui, eu vou sempre ouvi-lo, independente da língua que ele escolher.


#bilinguismo #bilingualism #codeswitching #codemixing #portugues #afeto

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